Menina morre por síndrome inflamatória decorrente da Covid-19

Ana Clara Macedo dos Santos, 13 anos, deu entrada em hospital municipal com dores semelhantes a cólicas na semana passada.

Sem apresentar sintomas típicos, como falta de ar, ou ainda ausência de paladar e olfato, a estudante Ana Clara Macedo dos Santos, 13 anos, morreu por uma síndrome inflamatória, decorrente da Covid-19, no último dia 24, segundo a Secretaria Municipal da Saúde de Campinas (93 km de SP), onde ela morava e estudava. A adolescente deu entrada em uma unidade de saúde, cerca de 24 horas antes, com dores semelhantes a cólicas.



O Devisa (Departamento de Vigilância em Saúde) de Campinas, da gestão Dário Saadi (Republicanos), investigava a causa da morte da jovem, pois o primeiro exame indicou que ela não estaria com o novo coronavírus. Porém, por volta das 15h40 desta quarta-feira (3), o município confirmou que uma síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica, decorrente da Covid-19 provocou a morte da menina.

A Secretaria Estadual da Educação, gestão João Doria (PSDB) e a própria família da menina descartam que ela tenha sido infectada na Escola Estadual Escritora Rachel de Queiroz, onde estudava.https://d-1289772190860457490.ampproject.net/2102200206005/frame.html

O pai de Ana, o motorista de ônibus Paulo César dos Santos, 50 anos, afirma que a adolescente foi levada ao hospital municipal Doutor Mário Gatti na segunda-feira da semana passada (22), após sentir dores durante todo o fim de semana anterior.

“Pensamos que ela estivesse tendo cólicas menstruais. Mas como as dores pioraram, resolvemos levar ela ao hospital”, afirmou o pai ao NF, na tarde desta quarta-feira (3).

Na unidade de saúde, ainda de acordo com Santos, médicos desconfiaram que as dores seriam de supostas pedras na vesícula, chegando a cogitar uma intervenção cirúrgica.

O quadro de saúde de Ana, porém, piorou rapidamente, acrescentou o motorista, obrigando a internação da garota na UTI (Unidade de Tratamento Intensivo) do hospital, por volta das 2h30 do dia 23.

“Na manhã deste mesmo dia, ela foi intubada e também sedaram ela”, afirmou Santos, acrescentando que recebeu um telefonema na manhã seguinte com a informação sobre a falência múltipla de órgãos da filha. “Depois, à tarde, ela morreu.”

Sobre a infecção da filha pelo novo coronavírus, o motorista afirmou “não fazer ideia” de como ocorreu, já que a garota não saía de casa. “Estão falando que ela se contaminou na escola, mas não dá para afirmar isso. Ela foi na aula [presencialmente] só uma vez, 15 dias antes de ser internada. Como sou motorista de ônibus e a mãe dela trabalha em recepção de hospital, nós também poderíamos ter passado o vírus para ela”, ressaltou.

Ana cursava o 8º ano do ensino fundamental na escola do Jardim Yeda. A unidade de ensino cancelou as aulas presenciais na quinta (25) e na sexta (26) da semana passara por luto, retomando as atividades nesta segunda-feira (1’º), segundo a Secretaria Estadual da Educação.

O Devisa de Campinas disse que a síndrome inflamatória que matou Ana caracteriza-se por inflamações da parede dos vasos sanguíneos de órgãos como rins, articulações, sistema nervoso central e vias respiratórias. “O diagnóstico baseia-se na presença de sinais e sintomas clínicos inespecíficos que devem ser avaliados dentro do contexto epidemiológico e excluída outras causas”, afirma trecho de nota.

O pai afirmou que Ana nasceu quando ele e a mulher não esperavam ter mais filhos além do então caçula, atualmente com 26 anos, e a primogênita, de 33. “Um médico falou que minha esposa não iria mais engravidar, mas estava enganado.”

Ana, segundo o motorista, mudou toda a rotina e energia da casa. Vaidosa, ela costumava se maquiar e, além disso, também demonstrou precocemente talento na cozinha, principalmente com doces. “Ela fazia pudim, brigadeiro, tudo uma delícia. Por isso, ele chegou a falar algumas vezes que pensava em se tornar chefe de cozinha.”

Frequentadora de uma igreja evangélica, a família percebeu também o amadurecimento da garota, quando a viam conversar com colegas sobre questões espirituais, por exemplo. “Ao invés de a gente dar conselho para ela, ela que puxava nossa orelha às vezes. Lembro de uma vez em que ela falou sobre perdoar. Isso tem que ser feito, não importa para quem. Se Deus é misericordioso, ela me falou, nós também precisamos fazer o mesmo com o próximo”, relembrou o motorista, com a voz embargada.